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Aula 1
O que é História? Negacionismos, revisionismos e historiografia em debate.
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Nosso primeiro tema do nosso espaço para estudos de História ENEM/UFRGS é destinado a entender o que é a História e como ela opera nos mais variados campos (científico, escolar, entretenimento, e no campo negacionista). Primeiramente, eu peço que você leia com atenção o texto sobre o conteúdo ou assista a videoaula sobre o tema. Bons estudos!
Questões Selecionadas: Historiografia, Memória e Negacionismo
ENEM 2025 - Questão 89
TEXTO I: Eu escolhi Bezalel e lhe dei competência e habilidade para fazer todo tipo de trabalho artístico...
TEXTO II: Moisés foi educado em toda a sabedoria dos egípcios e veio a ser poderoso em palavras e obras.
TEXTO III: Se conhecêsseis a ciência certa, logo renunciarias à ostentação.
Escritos em temporalidades diferentes (Antiguidade e Idade Média), os textos sagrados aproximam-se ao mostrar o papel da ciência para o(a):
Análise Historiográfica:
Gabarito: E
Esta questão exige evitar o anacronismo. "Ciência" nos textos antigos refere-se à techné (técnica/saber fazer) aplicada à vida prática.
Texto I: Saber para o artesanato (labor).
Texto II: Saber para obras políticas.
Texto III: Saber para conduta social (renúncia à ostentação).
ENEM 2025 - Muro de Berlim
Moradores de Berlim protestaram contra a demolição de um trecho do muro que dividiu a cidade... Tratado como patrimônio cultural e histórico da cidade, o East Side Gallery... está na mira de uma construtora que pretende levantar um condomínio de luxo...
A demolição do símbolo histórico mencionado representa uma:
Análise de Memória e Patrimônio:
Gabarito: A
A questão trata do combate ao Negacionismo via preservação. O Muro é um "Lugar de Memória" (Pierre Nora). Derrubá-lo em favor de um condomínio (capital/lucro) é apagar a marca física do trauma histórico, violando a memória coletiva da cidade.
ENEM 2024 - Questão 73
As capas dos folhetos de cordel... transformadas em clichês em Recife ou Fortaleza... o que levou a que santeiros e artesãos locais fossem requisitados para cortar na umburana...
No início do século XX, a incorporação da técnica de produção descrita no texto promoveu uma renovação da:
Análise Cultural:
Gabarito: D
O foco é a Cultura Material. O texto não fala sobre mudança nas histórias (narrativa), mas na aparência física dos folhetos. A xilogravura (feita na madeira umburana) conferiu uma nova identidade visual (estética) às publicações.
ENEM 2024 - Questão 56
Axexê, um rito de passagem... No primeiro dia, foi colocada uma panela de barro... No terceiro dia, quatro pessoas... carregaram um lençol... que aparentemente continha um corpo...
O ritual brasileiro apresentado no texto representa, para seus adeptos, a:
Análise de Identidade e Memória:
Gabarito: A
O rito fúnebre (Axexê) no Candomblé não é o fim, mas a reintegração do ancestral. Ao praticar o rito, a comunidade reafirma seus laços, sua história e sua origem, garantindo a continuidade da memória coletiva do grupo.
Laboratório de História - UFRGS (Historiografia e Negacionismos)
Laboratório de Historiografia
Projeto História e Jogos - Análise de Fontes e Combate ao Negacionismo (UFRGS)
UFRGS 2024 - Questão 36
O processo de trabalho na indústria da carne é historicamente apontado como uma das mais insalubres experiências da produção humana. Esta constatação se estabelece bem antes do advento dos frigoríficos, nos primórdios da indústria de carnes. O exemplo mais evidente é o das charqueadas, instaladas na região sul do Brasil desde o fim do século XVIII, que eram conhecidas tanto pelas condições extremamente difíceis de labuta para seus trabalhadores escravizados quanto pela importância econômica. [...] Entre fins do século XIX e início do século XX, a produção de charque nas repúblicas do Prata e também no sul do Brasil sofreu uma grande transformação tecnológica com a implantação dos frigoríficos e a adoção de um processo muito mais eficaz de conservação das carnes, através do resfriamento. [...] Se o processamento da carne já era insalubre no modelo das charqueadas, pelo próprio manejo da carne, o processo de trabalho dos frigoríficos acrescentou ao setor não apenas a modernização tecnológica, mas também a administração programada dos tempos e movimentos dos trabalhadores. [...] Essa situação altamente insalubre foi fortemente agravada pela eclosão da pandemia de Covid-19 em 2020. Enquadrados como serviços essenciais, por se tratar da indústria de alimentação, os frigoríficos não foram afetados pelos decretos de distanciamento social. De fato, com o aumento da demanda mundial por alimentos, a produção acelerou-se, especialmente no primeiro ano da pandemia.
GONTARSKI SPERANZA, C. Pandemia, trabalho em frigoríficos e cultura de direitos. Revista Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 15, p. 1-16, 2023.
O texto perpassa, a partir da produção de carnes, diferentes fases da produção industrial (do século XVIII ao XXI). Considerando o texto, as chamadas fases da revolução industrial e o mundo globalizado duramente afetado pela pandemia de Covid-19 na atualidade, assinale a alternativa correta.
(A) A chamada “quarta fase” da Revolução Industrial também é conhecida como “Indústria 4.0” e caracteriza-se pelo início do emprego das linhas de montagem.
(B) As condições de produção de carne foram modernizadas, principalmente nas primeiras décadas do século XX, com o emprego de novas tecnologias, como o resfriamento e os frigoríficos.
(C) A indústria de carnes, na pandemia de Covid-19, passou por uma transformação tecnológica, que melhorou as condições de trabalho.
(D) As charqueadas foram implementadas na região Sul do Brasil no final do século XVIII, a partir do uso de mão de obra livre e assalariada.
(E) Os processos de modernização empregados na indústria da carne tiveram, como principal objetivo, a implementação de condições de trabalho salubre para os trabalhadores.
A modernização tecnológica não significa automaticamente melhoria nas condições sociais. A história do trabalho mostra que inovações (como o resfriamento) podem coexistir e até agravar a exploração do trabalhador, como evidenciado na pandemia.
UFRGS 2024 - Questão 38
Leia o trecho abaixo, extraído do Jornal O Homem de Cor, publicado em 1833.
[…] o título 2º da Constituição marcando os cidadaos brasileiros não distinguio o roxo do amarello o vermelho do preto, mas o dictador Zeferino, na Patria dos Agostinhos e Caneeas, ouzou em menos cabo da grande Lei cravar agudo punhal em os peitos Brasileiros.
O texto em questão faz uma crítica à tentativa do Presidente da Província de Pernambuco de proibir a participação de negros em determinados postos da Guarda Nacional. Trata-se de um documento histórico que pode ser utilizado para compreender as práticas de resistência e organização
(A) da população escravizada, organizada em quilombos para combater a Guarda Nacional.
(B) da população escravizada, que reivindicava a participação na Guarda Nacional.
(C) da população negra livre, contrária aos artigos da Constituição que proibiam sua participação em profissões e ofícios.
(D) da população negra escravizada, nascida no Brasil, que, no período em questão, já possuía jornais abolicionistas.
(E) da população negra livre que, no contexto em questão, já era numerosa em algumas províncias do Império.
O uso de fontes primárias produzidas pela própria população negra (como jornais) é vital para combater o negacionismo que os retrata apenas como sujeitos passivos. Eles conheciam e utilizavam a Constituição para exigir os seus direitos civis.
UFRGS 2024 - Questão 42
A partir do início de 1942, em Auschwitz e nos Lager subordinados (em 1944, cerca de quarenta), o número de controle dos prisioneiros não era mais somente costurado nas roupas, mas tatuado no antebraço esquerdo. […] A operação era pouco dolorosa e não durava mais que um minuto, mas era traumática. Seu significado simbólico estava claro para todos: este é um sinal indelével, daqui não sairão mais; [...] Vocês não têm mais nome: este é seu nome. A violência da tatuagem era gratuita, um fim em si mesmo, pura ofensa: não bastavam os três números de pano costurados nas calças, no casaco e no agasalho de inverno? Não, não bastavam: era preciso algo mais, uma mensagem não verbal, a fim de que o inocente sentisse escrita na carne sua condenação. […] Quarenta anos depois, minha tatuagem se tornou parte do meu corpo. Não me vanglorio dela nem me envergonho, não a exibo nem a escondo. Mostro-a de má vontade a quem me pede por pura curiosidade; prontamente e com ira, a quem se declara incrédulo. Muitas vezes os jovens me perguntam por que não a retiro, e isto me espanta: por que deveria? Não somos muitos no mundo a trazer esse testemunho.
LEVI, P. Os afogados e os sobreviventes. São Paulo/Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016. p. 96-97.
No trecho acima, Primo Levi, italiano que sobreviveu aos campos de concentração nazistas, narra aspectos da sua experiência em Auschwitz que sintetizam um dos objetivos fundamentais dos campos de concentração. Esse objetivo diz respeito
(A) ao aprisionamento e emprego em trabalhos forçados de judeus do sexo masculino.
(B) ao aprisionamento exclusivo de opositores políticos, a fim de evitar revoltas contra o III Reich.
(C) ao emprego de práticas de desumanização, aplicadas aos prisioneiros antes de exterminá-los.
(D) ao uso dos campos de concentração como prisão de soldados inimigos.
(E) à diferenciação de prisioneiros colaboracionistas daqueles prisioneiros comuns, através de técnicas como tatuagens e vestimentas.
Primo Levi é uma voz crucial contra o negacionismo do Holocausto. A marcação na pele era uma ferramenta institucional para retirar a identidade e a humanidade do prisioneiro, facilitando psicológica e burocraticamente o extermínio em massa.
UFRGS 2024 - Questão 43
A MÃO DA LIMPEZA
O branco inventou que o negro / Quando não suja na entrada / Vai sujar na saída, ê / Imagina só / Vai sujar na saída, ê / Imagina só / Que mentira danada, ê / Na verdade a mão escrava / Passava a vida limpando / O que o branco sujava, ê / Imagina só / O que o branco sujava, ê / Imagina só / O que o negro penava, ê / Mesmo depois de abolida a escravidão / Negra é a mão / De quem faz a limpeza / Lavando a roupa encardida, esfregando o chão / Negra é a mão / É a mão da pureza / Negra é a vida consumida ao pé do fogão / Negra é a mão / Nos preparando a mesa / Limpando as manchas do mundo com água e sabão / Negra é a mão / De imaculada nobreza / Na verdade a mão escrava Passava a vida limpando O que o branco sujava, ê Imagina só / O que o branco sujava, ê Imagina só / Eta branco sujão
A canção A mão da limpeza foi lançada em 1984, por Gilberto Gil. A canção aborda a questão da presença da população negra brasileira no emprego doméstico, realidade cujas raízes estão relacionadas ao contexto histórico da escravidão. Com relação ao tema, considere as afirmações abaixo.
I - Em 2013, foi aprovada a Emenda Constitucional 72, conhecida como PEC das domésticas, que, pela primeira vez na história do Brasil, equiparou os direitos das trabalhadoras domésticas aos demais trabalhadores urbanos e rurais.
II - Na atualidade, a prevalência da população negra brasileira nos empregos domésticos, especialmente das mulheres negras, evidencia a persistência de hierarquias sociais, raciais e de gênero como fatores que incidem na limitação de oportunidades de estudo, trabalho e mobilidade social.
III - Ao longo da história do século XX, a defesa dos direitos das trabalhadoras domésticas foi uma pauta que mobilizou a categoria, com destaque para Laudelina de Campos Melo, mulher negra, que, na década de 1930, fundou a primeira Associação de Empregadas Domésticas do país.
(A) Apenas I.
(B) Apenas II.
(C) Apenas III.
(D) Apenas I e II.
(E) I, II e III.
Esta questão exige compreender o conceito de "longa duração". O racismo estrutural atual no mercado de trabalho doméstico é uma continuação direta das políticas (ou da falta delas) pós-abolição, um processo combatido ativamente por figuras históricas silenciadas, como Laudelina.
UFRGS 2022 - Questão 32
Graças ao cinema e à literatura [...], o período medieval tornou-se objeto de numerosas celebrações coletivas, cujas iniciativas são tanto públicas quanto privadas: filmes, espetáculos, romances, festas medievais, butiques e restaurantes, sites, jogos etc. No entanto, essa popularização não significou o triunfo de uma visão positiva sobre o período medieval. Não são raras as vezes em que ele é evocado para realçar aspectos negativos da atualidade: a tortura, a intolerância religiosa, a submissão da mulher e os crimes hediondos, entre outros. Ainda que nenhuma dessas práticas seja uma exclusividade daquele período, elas são identificadas como ‘medievais’.
SILVA. M. C. História medieval. São Paulo: Contexto, 2019. p. 138.
Com relação à construção e ao uso do conceito de “Idade Média”, considere as seguintes afirmações.
I - Os humanistas italianos definiram o período como um contexto intermediário, marcado pela ideia de “trevas”, em contraposição aos valores artísticos e culturais da antiguidade greco-romana e ao seu “renascimento” a partir do século XIV.
II - O Romantismo elaborou, na primeira metade do século XIX, uma valorização do período medieval, a partir da busca pelas origens culturais e pelos elementos definidores das identidades nacionais dos povos europeus.
III - A noção de “Idade Média”, além de conceito usado para demarcar um período histórico, é utilizada como um valor de contraponto àquilo que é considerado moderno, progressista e democrático nas sociedades contemporâneas.
(A) Apenas I.
(B) Apenas III.
(C) Apenas I e II.
(D) Apenas II e III.
(E) I, II e III.
Esta é uma discussão essencial sobre como a História é fabricada. A "Idade Média" não existe na natureza de forma fechada; é uma narrativa criada pelo Renascimento para se autopromover, reinventada pelo Romantismo e usada hoje (inclusive nos videojogos) como espelho dos nossos próprios medos.
UFRGS 2022 - Questão 37
*Na prova original, foram exibidas imagens da estátua de Cristóvão Colombo (EUA) decapitada e da estátua do Padre Antônio Vieira (Portugal) pichada com a palavra "descoloniza", ambas em 2020.*
Considere as seguintes afirmações sobre as intervenções na estátua de Cristóvão Colombo e de Antônio Vieira, ocorridas após o assassinato de George Floyd, em 2020, e da eclosão do movimento Black Lives Matter.
I - Os dois monumentos fazem parte da construção de uma memória do colonialismo, realizada a partir da ótica dos colonizadores.
II - O antirracismo que motivou as intervenções insere-se na longa duração da história de resistência das populações hierarquicamente inferiorizadas desde o colonialismo.
III - A palavra “descoloniza”, escrita no pedestal da estátua de Antônio Vieira, faz referência à necessidade de Portugal reconhecer a independência de suas atuais colônias africanas.
(A) Apenas I.
(B) Apenas II.
(C) Apenas III.
(D) Apenas I e II.
(E) I, II e III.
Monumentos em praça pública não são "a História" neutra; são decisões políticas sobre quem deve ser lembrado como herói. A III está incorreta pois as ex-colónias africanas portuguesas já são independentes desde a década de 1970; o pedido para "descolonizar" refere-se à estrutura de pensamento e à memória histórica.
UFRGS 2022 - Questão 38
[...] boa parte das duas últimas gerações de indivíduos escravizados no Brasil não era escrava. Moralmente ilegítima, a escravidão do Império era ainda – primeiro e sobretudo – ilegal [...]. Tenho para mim que este pacto dos sequestradores constitui o pecado original da sociedade e da ordem jurídica brasileira. [...] Pelos motivos apontados acima, os ensinamentos do passado ajudam a situar o atual julgamento sobre cotas universitárias na perspectiva da construção da nação e do sistema político de nosso país. [...] Trata-se, sobretudo, de inscrever a discussão sobre a política afirmativa no aperfeiçoamento da democracia, no vir a ser da nação.
ALENCASTRO, L. F. O pecado original da sociedade e da ordem jurídica brasileira. Novos Estudos, n. 87, 2010, p. 7-9.
Considerando a posição do historiador Luiz Felipe de Alencastro, apresentada em audiência no STF, assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as seguintes afirmações.
( ) O Estado e parte considerável da sociedade, ao longo da história do Império brasileiro, aceitaram manter uma estrutura econômica e social fundada na ilegalidade da escravização de indivíduos que deveriam ser considerados livres.
( ) A escravidão, durante o período imperial, era encarada pelo conjunto da sociedade como ilegítima, uma vez que feria os princípios da moralidade cristã e do liberalismo econômico, fomentados a partir do Segundo Reinado.
( ) A implementação de políticas de ações afirmativas para a redução das desigualdades sociais no presente pode ser justificada a partir da compreensão dos processos históricos que possibilitaram e deram continuidade a tais desigualdades.
( ) O estudo do passado pela história é um instrumento importante para a definição de um sistema político mais justo, para a construção de uma sociedade mais democrática e para elaborar projetos de futuro para a nação.
(A) F – V – F – V.
(B) V – F – V – V.
(C) V – F – F – V.
(D) F – V – F – F.
(E) F – F – V – F.
Esta é a prova cabal de que a História é uma ferramenta de intervenção no presente. Um historiador vai ao STF provar que o Estado baseou a sua economia num crime (o tráfico ilegal pós-1831), justificando assim as cotas universitárias não como um "favor", mas como uma reparação histórica inadiável.
UFRGS 2022 - Questão 42
Sobre a história da saúde pública no Brasil, é correto afirmar que
(A) os projetos de saneamento das grandes cidades brasileiras, no início do século XX, embasavam-se em crenças e tradições religiosas a despeito da ciência.
(B) a “Revolta da Vacina” foi um movimento popular ocorrido no Rio de Janeiro que demandava às autoridades a disponibilização de imunizantes contra a varíola.
(C) a epidemia de “gripe espanhola” foi rapidamente controlada no Brasil por meio da vacinação obrigatória, imposta pelo Governo Federal.
(D) a desinformação e as informações falsas sobre epidemias e pandemias foram episódios restritos aos governos da Primeira República.
(E) o Brasil, a partir da promulgação da Constituição de 1988, passou a contar com um sistema gratuito, público e universal de saúde, o SUS.
A afirmação "D" é o cerne do negacionismo histórico, ao tentar isolar a desinformação no passado. Como vimos recentemente com a Covid-19, as "fake news" e o negacionismo científico na saúde são ferramentas políticas recorrentes. A resposta correta sublinha uma grande conquista social de 1988.
UFRGS 2022 - Questão 45
O quadro “Independência ou morte” (Pedro Américo, 1888) está localizado no Salão Nobre do Monumento do Ipiranga. Construído entre 1885 e 1890, o edifício-monumento tinha como objetivos reforçar o 7 de setembro como episódio que promoveu o “nascimento do Brasil”, apresentar D. Pedro como herói nacional e construir uma memória positiva do Império. O prédio, hoje Museu Paulista da USP, fechado desde 2013, será reaberto ao público em 2022, no marco das rememorações do bicentenário da independência do Brasil.
Considere as afirmações abaixo, sobre a conformação da memória da independência.
I - A narrativa gloriosa do Império e de D. Pedro, presente na tela e no edifício-monumento, foi elaborada em uma conjuntura de crise da monarquia e de intensificação da propaganda republicana.
II - A tela, mesmo executada décadas depois dos acontecimentos, representa um retrato fiel dos episódios ocorridos na colina do Ipiranga, em São Paulo, em 7 de setembro de 1822.
III - O quadro contribuiu para a criação de uma imagem do “nascimento do Brasil” a partir da heroicização do gesto de D. Pedro, representando emblematicamente o episódio do Ipiranga como marco da independência do Brasil.
(A) Apenas I.
(B) Apenas II.
(C) Apenas III.
(D) Apenas I e III.
(E) I, II e III.
O historiador deve ler as imagens (pinturas, filmes, jogos) como construtos e não como "espelhos mágicos" do passado. A tela foi uma jogada política e estética para salvar a popularidade de uma Monarquia em colapso (I e III são verdadeiras), não um registo "fiel" ou documental como defende a afirmação II.
UFRGS 2023 - Questão 31
A descoberta de artefatos, sarcófagos e a estruturação de sítios arqueológicos no Egito datam do século XIX. Muitas dessas descobertas encontram-se em museus fora do Egito, e isso está relacionado, entre outros fatores, ao imperialismo e ao colonialismo das potências europeias daquele período. Uma das descobertas mais conhecidas é a de 1922 do túmulo de Tutancâmon. Em abril de 2022, na cidade do Cairo, no Egito, aconteceu um grande desfile público de 22 sarcófagos com múmias. Elas foram levadas do Museu Egípcio para o recém-inaugurado Museu Nacional da Civilização Egípcia. [...] No mês seguinte, foi anunciada a descoberta de mais de 250 sarcófagos, estátuas e um papiro com cerca de nove metros de comprimento. Nesse papiro, há trechos do Livro dos Mortos.
Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) as afirmações abaixo, sobre as sociedades do Egito Antigo e o conhecimento que se tem delas.
( ) Os faraós homens eram os únicos a serem mumificados.
( ) As descobertas arqueológicas permitem ampliar o conhecimento sobre as antigas sociedades.
( ) A dominação imperialista de algumas potências do século XIX gerou grande parte dos acervos de grandes museus fora do Egito.
( ) O papiro é uma planta que existia em grande quantidade no Egito antigo e era usada, entre outras coisas, para o registro escrito de diferentes tipos de informações.
(A) V – V – F – V.
(B) F – F – F – V.
(C) F – V – F – F.
(D) V – F – V – F.
(E) F – V – V – V.
Esta questão desconstrói a visão romântica e aventureira da arqueologia, demonstrando aos alunos que a acumulação de "tesouros egípcios" em Londres e Paris foi um reflexo direto do saque colonial e das relações de poder desiguais do Imperialismo do século XIX.
UFRGS 2023 - Questão 33
Perguntava-me quais poderiam ser as causas e motivos que levavam tantos homens, clérigos e outros, a maldizer as mulheres e a condenar suas condutas em palavras, tratados e escritos. Isso não é questão de um ou dois homens [...] Filósofos, poetas e moralistas, e a lista poderia ser bem longa, todos parecem falar com a mesma voz para chegar à conclusão de que a mulher é profundamente má e inclinada ao vício. [...] Mas, pelo meu conhecimento e experiência e por mais que examinasse profundamente a questão, não conseguia compreender, nem admitir, a legitimidade de tal julgamento sobre a natureza e a conduta das mulheres.
CHRISTINE DE PIZAN. A cidade das damas. Florianópolis: Editora Mulheres, 2012. p. 58-59.
Considerando o texto de Christine de Pizan (1363-1430) e a produção de conhecimento nos períodos conhecidos como medieval e moderno, é correto afirmar que
(A) a autora expressa seu acordo com o que lia sobre as mulheres e com o que pensava ela mesma sobre as mulheres.
(B) a produção autoral das mulheres, comparada à produção escrita por homens, é mais abundante e uma das razões que explica essa situação é o acesso delas aos espaços de alfabetização e escrita.
(C) a autora é a principal representante do movimento político e organizado que, no século XV, reivindicava mais direitos políticos às mulheres.
(D) a autora não concorda com os argumentos que lia em outros textos, escritos por homens.
(E) a autora afirma que a lista de obras sobre a natureza das mulheres não é muito extensa.
Um exemplo clássico de resistência na produção do conhecimento. Christine de Pizan desafia a historiografia e filosofia monopolizada por homens, inaugurando um questionamento que seria essencial para a história feminista séculos depois. Opõe-se abertamente à "verdade oficial" da sua época.
UFRGS 2023 - Questão 38
Na última segunda-feira, o jovem imigrante congolês Moïse Kabamgabe, de 24 anos, foi brutalmente assassinado no Rio de Janeiro. [...] A hostilidade contra africanos tem longa história no Brasil. Nunca é demais lembrar que a história do Brasil é fundada na escravidão. O tráfico transatlântico de africanos escravizados trouxe somente para o Brasil mais de cinco milhões de homens, mulheres e crianças... No século 19, depois da Revolta dos Malês, o governo local estabeleceu uma política de deportação para a África daqueles envolvidos no episódio. [...] Com o final do tráfico de africanos escravizados, uma outra política de imigração se estabeleceu no país. Imigrantes europeus, como os italianos, eram cada vez mais numerosos no Brasil depois de 1850. Os africanos e seus descendentes, por sua vez, foram empurrados cada vez mais para a subalternidade, que se arrasta até os nossos dias.
Considerando a história das relações étnico-raciais no Brasil, a principal ideia contida no segmento é que
(A) há relação entre o assassinato, o passado escravista e o enraizamento do racismo na sociedade.
(B) violências contra imigrantes constituem casos isolados e demonstram a existência de preconceitos por parte de uma pequena parcela da sociedade.
(C) o país, ao longo de sua história, caracterizou-se por ser hospitaleiro com os imgirantes, especialmente os refugiados.
(D) a crise econômica que gera competição por empregos entre brasileiros e estrangeiros é o principal motivo do racismo e da xenofobia contra imigrantes.
(E) o fim do tráfico de escravos e a adoção de políticas para estimular a vinda de imigrantes europeus contribuíram para promover maior igualdade entre brancos e negros.
Destruição direta do "mito da democracia racial" ou do "país acolhedor". A história prova que atos de violência racial não são anomalias (ou "casos isolados"), mas sintomas crônicos de um sistema estrutural que empurrou as populações negras para a marginalidade desde o Império.
UFRGS 2023 - Questão 44
Em relação ao MARCO TEMPORAL, ele é uma máquina de moer história… ele acaba com a história, muda toda a história. Porque de 5 de outubro de 88 pra trás não há mais história, e sim a partir daquele dia, ele inverte a lógica também: quem não estava passa a estar, e quem estava passa a ser invasor. Parece que quem chegou nas caravelas foram os indígenas.
SABARU, Marcos. Máquina de moer história: sobre o marco temporal. Articulação dos Povos Indígenas do Brasil – ABIP.
Considere as afirmações abaixo, relacionadas aos debates sobre o Marco Temporal.
I - De acordo com o Marco Temporal, a demarcação de uma terra indígena passa a depender da comprovação de que os povos originários viviam sob o espaço em questão, na data da promulgação da atual Constituição Federal.
II - No entendimento dos indígenas, os povos originários têm direito aos seus territórios tradicionalmente ocupados, conforme expresso no artigo 231 da Constituição brasileira.
III - No texto, Marcos Sabaru chama a atenção para o fato de que o Marco Temporal produzirá um apagamento da história indígena existente antes da Constituição de 1988.
(A) Apenas I.
(B) Apenas II.
(C) Apenas III.
(D) Apenas I e III.
(E) I, II e III.
O controlo do tempo é um instrumento de poder político. Estabelecer que a posse de terra só conta a partir de 1988 é institucionalizar o negacionismo histórico das expulsões, grilagens e mortes que ocorreram antes dessa data com os povos originários.
UFRGS 2023 - Questão 45
"Não vamos desistir de nossos cartuns", disse o presidente francês, Emanuel Macron, durante uma homenagem a Samuel Paty, o professor francês que foi decapitado por mostrar desenhos do profeta Maomé em um debate sobre liberdade de expressão na sala de aula. [...] E então, em uma cerimônia em homenagem ao professor decapitado, Macron elogiou Paty e prometeu "continuar essa luta pela liberdade, essa luta pela defesa da República da qual ele se tornou o rosto". As representações do profeta Maomé são consideradas tabu no Islã e são ofensivas para muitos muçulmanos. Mas o secularismo do Estado é fundamental para a identidade nacional da França. E, de acordo com o Estado francês, restringir a liberdade de expressão para proteger os sentimentos de uma comunidade em particular prejudica a unidade.
Os conflitos e tensões políticas noticiados na reportagem da BBC estão diretamente relacionados com a forma de concepção do estado francês, que diz respeito
(A) à perseguição às comunidades religiosas.
(B) à defesa dos valores ocidentais e cristãos.
(C) à laicidade do estado.
(D) à defesa das fronteiras francesas.
(E) ao direito do estado de restringir a liberdade de expressão dos cidadãos.
A laicidade, consolidada após a Revolução Francesa para afastar o clero do Estado, enfrenta hoje novas tensões históricas num cenário de diversidade e de choques culturais. É a História moldando as regras e as crises sociais do tempo presente.