Os grupos humanos crescem a partir de 40 mil anos atrás, assim como os elementos culturais. Já podemos perceber na arte rupestre o cotidiano, com pinturas representando a caça e os animais, mas também relações culturais mais complexas, como o uso de símbolos abstratos e a elaboração de megálitos como os de Stonehenge. É nessa última fase do Paleolítico (Superior) que vamos observar a formação de aldeamentos e o acúmulo de recursos. Ou seja, nesta fase final, já observamos uma cultura de coleta, tratamento e armazenamento de alimentos.
Por volta de 30 mil anos atrás, o lobo passa a ser domesticado e as linhagens passam a ser selecionadas; o crânio diminui, a sociabilidade aumenta e temos os cães, nossos parceiros na caça e na proteção. Aliás, até os humanos se autodomesticaram em prol da vida em sociedade. Neste contexto, percebemos as sociedades se transformando: se antes os grupos tinham uma distribuição direta do alimento, agora, no Paleolítico Superior, surgem grupos que conseguem estocar recursos. Com a distribuição adiada, as sociedades criam divisões sociais mais intensas e mecanismos de controle, aumentando a possibilidade de desigualdade.
Nas sociedades caçadoras e coletoras já havia distinção de papéis entre fêmeas e machos, o que fundamenta os gêneros mulher e homem. Não pensamos que sexo biológico e gênero sejam idênticos; uma fêmea gera uma criança, mas a responsabilidade social pela criação é uma construção de gênero. Enfim, homens e mulheres tinham papéis diferentes, mas status similares. Contudo, quando o acúmulo de excedentes chega e os grupos crescem, a hierarquia social se evidencia, assim como os conflitos; e a partir daí, recordamos Engels (2023, p. 69): “o desmoronamento do direito materno foi a grande derrota do sexo feminino em todo o mundo.”
Nas sociedades sem acúmulo de poder ou terras, a matrilinearidade era uma das formas de manter o status feminino. Porém, com a estocagem e o conflito, os homens passaram a assumir lideranças militares e políticas; para transmitir seus privilégios aos herdeiros, precisaram assegurar a paternidade biológica. Essa relação de poder começa a ser desfeita através do matrimônio monogâmico imposto à mulher. Aos poucos, ela passa a ser vista como um instrumento de reprodução. No Paleolítico Superior, essa observação de Engels (2023, p. 79) torna-se central: