8 de Março de 2026

Autor: João Henrique Couto Scotto

Paleolítico - Neolítico e a formação do patriarcado

Sabemos que a Pré-História é um período da História que compreende do surgimento do gênero humano até a invenção da escrita. Portanto, de forma geral, esse é um grande período da humanidade; pois, se reconhecemos o Homo Habilis como o primeiro ser humano (considerando o Australopiteco como um hominídeo ancestral), imagine um período histórico com 2 milhões de anos! Por isso, dividiu-se a Pré-História a partir de características comuns, como a confecção de instrumentos e os estilos de vida; neste caso, temos o Paleolítico e o Neolítico.

O Paleolítico (Idade da Pedra Lascada)

O período Paleolítico compreende a confecção de instrumentos em pedra (lascada), desde o Homo Habilis até a confecção de instrumentos mais complexos, como os feitos há 20 mil anos; daí outra subdivisão: Paleolítico Inferior, Médio e Superior. Mas, de modo geral, nesse período, temos uma característica predominante: a maioria das populações era nômade, pois vivia-se da caça e da coleta de alimentos e, quando o recurso acabava ou se tornava escasso, o grupo deveria migrar para outra região. Por isso, quando falamos da nossa espécie, é nesse momento que conseguimos povoar o planeta inteiro, inclusive o continente americano através do Estreito de Bering.

Sobre as características sociais deste período, podemos dizer que, até 40 mil anos atrás, a sociedade era composta de grupos pequenos, associados por laços de parentesco, de maneira que, em bandos, buscavam seus alimentos através da caça ou da coleta. Neste caso, é provável que houvesse poligamia e poliandria; ou seja, a família era composta por diversas mães e pais, e os filhos eram comuns a todos. Numa divisão exclusivamente biológica, entre macho e fêmea, não haveria espaço para mecanismos de exclusividade sexual e afetiva, como o ciúme. Claro, como as divisões eram sexuais, os machos eram destinados a tarefas voltadas à sua condição física de maior força e velocidade (caça e proteção do bando), enquanto as fêmeas ficavam com as tarefas de preparo e coleta de alimentos. Estudos arqueológicos de grupos que viveram entre 70 e 40 mil anos atrás sugerem uma distribuição de alimentos entre a comunidade e que grande parte provinha das fêmeas, como Zihlman (2012, p. 275) esclarece:

As evidências demonstram que a caça masculina e a importância da carne foram superestimadas. Em contraste, o papel das mulheres como provedoras e compartilhadoras de recursos, bem como sua contribuição para o sucesso do Homo sapiens, tem sido consideravelmente subestimado.

Os grupos humanos crescem a partir de 40 mil anos atrás, assim como os elementos culturais. Já podemos perceber na arte rupestre o cotidiano, com pinturas representando a caça e os animais, mas também relações culturais mais complexas, como o uso de símbolos abstratos e a elaboração de megálitos como os de Stonehenge. É nessa última fase do Paleolítico (Superior) que vamos observar a formação de aldeamentos e o acúmulo de recursos. Ou seja, nesta fase final, já observamos uma cultura de coleta, tratamento e armazenamento de alimentos.

Por volta de 30 mil anos atrás, o lobo passa a ser domesticado e as linhagens passam a ser selecionadas; o crânio diminui, a sociabilidade aumenta e temos os cães, nossos parceiros na caça e na proteção. Aliás, até os humanos se autodomesticaram em prol da vida em sociedade. Neste contexto, percebemos as sociedades se transformando: se antes os grupos tinham uma distribuição direta do alimento, agora, no Paleolítico Superior, surgem grupos que conseguem estocar recursos. Com a distribuição adiada, as sociedades criam divisões sociais mais intensas e mecanismos de controle, aumentando a possibilidade de desigualdade.

Nas sociedades caçadoras e coletoras já havia distinção de papéis entre fêmeas e machos, o que fundamenta os gêneros mulher e homem. Não pensamos que sexo biológico e gênero sejam idênticos; uma fêmea gera uma criança, mas a responsabilidade social pela criação é uma construção de gênero. Enfim, homens e mulheres tinham papéis diferentes, mas status similares. Contudo, quando o acúmulo de excedentes chega e os grupos crescem, a hierarquia social se evidencia, assim como os conflitos; e a partir daí, recordamos Engels (2023, p. 69): “o desmoronamento do direito materno foi a grande derrota do sexo feminino em todo o mundo.”

Nas sociedades sem acúmulo de poder ou terras, a matrilinearidade era uma das formas de manter o status feminino. Porém, com a estocagem e o conflito, os homens passaram a assumir lideranças militares e políticas; para transmitir seus privilégios aos herdeiros, precisaram assegurar a paternidade biológica. Essa relação de poder começa a ser desfeita através do matrimônio monogâmico imposto à mulher. Aos poucos, ela passa a ser vista como um instrumento de reprodução. No Paleolítico Superior, essa observação de Engels (2023, p. 79) torna-se central:

O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher na monogamia; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo masculino.

A Chegada do Neolítico (Idade da Pedra Polida)

As coletoras perceberam que algumas sementes retornavam após as cheias dos rios, experimentando a primeira forma de agricultura por volta de 10 mil anos atrás. Chamamos esse período de Neolítico devido aos instrumentos de pedra polida, mais afiados e resistentes para o trabalho e a guerra. Algumas sociedades se fixaram às margens dos rios através do plantio e, posteriormente, da domesticação de animais (por volta de 7 mil anos atrás), onde o cão assumiu também o papel no pastoreio.

Podemos relativizar a ideia de “Revolução Neolítica”, afinal, há 20 mil anos já existiam sociedades com estocagem de alimentos e hierarquização; logo, a agricultura foi um ciclo deste processo. Essa mudança transformou a estrutura social: as populações cresceram e, em sociedades sedentárias, a mulher passava a ter intervalos menores entre gestações em comparação ao período nômade. Lideranças situacionais do Paleolítico tornavam-se chefes militares e surgia a classe dos sacerdotes.

A matrilinearidade não determina se a sociedade será dominada por homens ou mulheres, mas há uma tendência de dominação masculina em sociedades com monogamia e controle da sucessão, fortalecendo o Patriarcado. Como Gerda Lerner (2019, p. 82) diz:

“As coisas se desenvolveram de certa maneira, causando determinadas consequências que nem homens nem mulheres planejaram […] Quando a consciência do processo e de suas consequências se desenvolveu, já era tarde demais – pelo menos para as mulheres – para interromper o processo.”

As sociedades sedentárias basearam-se cada vez mais no homem, seja na agricultura de arado, na pecuária ou na guerra. Esse processo aumentou com a Idade dos Metais (7-5 mil anos atrás), onde o bronze tornou as ferramentas e armas mais duráveis, consolidando as primeiras cidades.

Apesar disso, o simbólico feminino resistiu através das “Deusas-Mães”, ligadas à fertilidade. Contudo, em contextos de fome ou guerra, a mulher tornava-se vulnerável como instrumento de reprodução. Como diz Lerner (2019, p. 83): “a primeira apropriação de propriedade privada é a apropriação do trabalho de mulheres como reprodutoras.”

Concluo com Lerner (2019, p. 83):

“A história da civilização é a história de homens e mulheres que lutam motivados por necessidade, dependência vulnerável da natureza, até a liberdade e domínio parcial desta. Nessa luta, mulheres foram limitadas por mais tempo a atividades básicas de espécie em comparação com os homens, portanto, eram mais vulneráveis a desvantagens.”

Homens e mulheres adaptaram-se a condições hostis, mas determinadas transições históricas promoveram a mulher a uma posição de subordinação. É fundamental compreendermos que a construção da nossa sociedade ainda está alicerçada na dominância masculina nas instituições; este é o mundo na Sociedade do Patriarcado.

Referências Bibliográficas

CONDEMI, Silvana; SAVATIER, François. As Últimas Notícias do Sapiens: O que a arqueologia revela sobre a nossa história. Belo Horizonte: Vestígio, 2019.

ENGELS, Friedrich. A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado. 12ed. Rio de Janeiro: Best Seller, 2023. 

LERNER, Gerda. A Criação do Patriarcado: História da Opressão das Mulheres pelos Homens. São Paulo: Cultrix, 2019.

ZIHLMAN, Adrienne L. The Real Females of Human Evolution. Evolutionary Anthropology, [s. l.], v. 21, n. 6, p. 270-276, 2012.