A INDEPENDÊNCIA DO BRASIL EM AGE OF EMPIRES III

Por João Henrique Couto Scotto

Eu joguei pela milésima vez Age Of Empires 3, mas dessa vez eu gostaria de detalhar uma passagem importante para nós, jogadores brasileiros, que é a forma como o Brasil aparece no jogo. Mais especificamente, o Brasil aparece a partir de um comando chamado de “Revolução” no jogo, possível a partir da civilização portuguesa. Na verdade, eu não sei se é só com Portugal, porque aparecem outras possibilidades revolucionárias, como no Peru e na Grã-Colômbia. Enfim, a nossa ideia é identificarmos essa passagem no jogo e debatermos o processo de independência do nosso país.

Age of Empires 3 é um produto da Indústria Cultural, ou seja, ele faz parte da tendência capitalista em transformar diversão em lucro. Nesse caso, o jogo em si virou um produto para consumo, e eu acredito que seja o produto de entretenimento que mais consumimos atualmente. E talvez o nosso processo de independência no jogo seja bem genérico, porque essa indústria cultural busca sempre um público mais amplo; torna-se necessário “disseminar bens padronizados para a satisfação de necessidades iguais” (Adorno, 2020, p. 100).

Mas vamos ao que interessa: começamos com a facção portuguesa e seu processo de colonização no Brasil, um processo de colonização mascarado e que necessita urgentemente de uma outra análise específica sobre as representações apresentadas. Enfim, quando chegamos na chamada “era industrial” (o jogo é dividido em eras fictícias), nós podemos acionar um comando chamado “Revolução”. Aí aparece a opção do Brasil, onde há uma opção superanacrônica na qual os Voluntários da Pátria se unem para apoiar a causa, e pronto: rapidamente a civilização se torna Brasil, a metrópole passa a ser o Rio de Janeiro (pelo menos acertaram a capital) e a bandeira do Império do Brasil substitui a do Império Português. E fim, nossa independência é tratada como uma “revolução” do povo, pois há uma transformação dos chamados “aldeões” no jogo em milicianos, no estilo daqueles do filme O Patriota, como as representações da independência dos EUA no cinema.

A Família Real no Brasil

Vamos mudar algumas coisas nesse jogo. Eu não sou nenhum acionista da Microsoft (produtora do jogo), mas eu posso sugerir mudanças radicais nas representações apresentadas.

Primeiro, há uma opção civilizatória chamada “Príncipe Fugitivo”, e realmente posso contar essa história da nossa independência por aí, pois d. João VI se torna rei no Brasil anos depois da chegada da família real portuguesa, que em março de 1808 aportava no Rio de Janeiro fugida de Napoleão. Essa chegada da Família Real portuguesa transforma algumas estruturas da colônia Brasil, e é como no jogo, com novas construções e possibilidades. Ou seja, entre 1808 e 1822, haverá uma instrumentalização da colônia a partir de infraestruturas, como universidades, hospitais, bancos, biblioteca, teatro, abertura de estradas, correios, enfim, tudo isso devido à necessidade de instalação portuguesa na colônia. Outros acréscimos serão culturais, como a chegada de expedições de artistas franceses, como Nicolas-Antoine Taunay e Debret (pintores que fizeram inúmeras representações do Brasil no período), e o próprio Auguste-Marie Taunay (escultor) e Montigny (arquiteto), que fizeram diversos monumentos e prédios, como o Instituto de Belas Artes projetado por Montingny. Oras, isso poderia estar presente no jogo; uma pena que mantiveram o padrão das civilizações hegemônicas.

Mas não para por aí: se o jogo quisesse retratar uma revolta no Brasil, poderia utilizar a de 1817, quando em Pernambuco estoura a Revolução Pernambucana — um levante contra o reinado de d. João VI, onde os revoltosos (estes sim, inspirados no processo de independência dos EUA) chegaram até mesmo a controlar Pernambuco em 6 de março daquele ano. Porém, com o desembarque de tropas portuguesas (por volta de 8 mil homens), o movimento fracassa. Aliás, d. João VI só seria aclamado rei no Brasil no ano seguinte.

Mas a independência do Brasil tem relação com outra revolução: a do Porto, também conhecida como Regeneração de 1820. De forma bem resumida, a Revolução Liberal do Porto tem início na atual Praça da Liberdade (na cidade do Porto) e começou com uma radicalização de um movimento da burguesia e nobreza, que buscava mais autonomia de governo com relação à Inglaterra, que “auxiliava” o rei foragido no Brasil em seu controle do solo português. O movimento foi militar e político, buscava uma constituição e estourava de fato em 24 de agosto de 1820, chegando a Lisboa no mês seguinte. Naquele mesmo ano haveria a formação de um governo provisório em Portugal — as Cortes, que não se reuniam desde 1698 —, e uma das demandas foi o retorno do rei para Portugal.

Antes de mais nada, é legal entendermos o que são essas “Cortes” tão distantes da nossa tradição política. Historicamente, na Península Ibérica, as Cortes eram assembleias representativas tradicionais — reunindo os Três Estados (Clero, Nobreza e Povo/Cidades) — que funcionavam como uma espécie de parlamento consultivo e deliberativo perante a Coroa. Com a Revolução Liberal do Porto em 1820, essas Cortes foram reconvocadas sob uma nova roupagem liberal e constitucionalista para redigir a primeira Constituição portuguesa. O grande nó da questão era a representação: embora o Brasil tivesse sido elevado a Reino Unido a Portugal e Algarves em 1815, as Cortes exigiam o retorno do controle metropolitano e tratavam o território americano com clara subordinação, concedendo aos brasileiros um número de deputados proporcionalmente menor e impondo medidas de recolonização que empurraram a elite local para a ruptura de 1822.

O Cabo de Guerra entre Brasil e Portugal

Se o jogo fosse um cabo de guerra, até daria para explicar melhor o que vai acontecer a partir de agora. O que acontece é que, desde a formação das Cortes Constitucionais, o poder absoluto de d. João VI se esvaía. As Cortes Constitucionais buscavam um novo tipo de governo — a Regência —, e para reerguer Portugal, elas buscavam o retorno do rei para o seu país. A partir daí cria-se um imenso debate político em Portugal, no entorno de d. João VI e nas elites brasileiras: o que o rei deve fazer? E no jogo, nós temos um novo tipo de governo sendo apresentado no início da Era Industrial — que é o do vice-rei —, e isso é interessante pois, nessa disputa entre metrópole e colônia existente na América do século XIX, a figura de um vice-rei não tinha espaço nessa política entre Portugal e Brasil, pois ambos tinham status igual no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Até mesmo através de uma simples gameplay nós já conseguimos perceber a contradição política existente aí.

É claro que não foi apenas eu na minha jogatina que percebi a contradição; o debate ao redor de d. João VI foi intenso e imenso. O conde de Palmela defendia a permanência do rei e o envio de d. Pedro (seu filho) para Portugal; já o conselheiro mais próximo do rei, Tomás Antônio, dizia para o rei ficar e mostrar a sua autoridade. Já o conde dos Arcos, que ocupava o ministério da Marinha, previa que d. João VI seria obrigado a retornar. Enfim, os debates se estendiam além do círculo político próximo de d. João VI: como visto nos jornais da época, duas correntes se destacavam, uma fiel às Cortes de Lisboa (composta por militares e portugueses) e a outra apostando na liderança de d. Pedro, inclusive com a forte adesão da maçonaria, que seria importante nesse processo. Olha aí: a Igreja Católica também tinha grande influência política, porém, no jogo, resume-se a um poder de “conversão” de tropas.

As Cortes entravam em ação e, em fevereiro de 1821, d. João VI era obrigado a jurar fidelidade à constituição. O movimento não pararia por aí, e em 26 de abril d. João embarcava calado, junto com sua esposa (exultante de felicidade, pois ela retornaria à Europa). Junto com ele iria uma fortuna em ouro, deixando o “Banco do Brasil” (fundado por ele mesmo) agora sem fundos. Ao chegar em Portugal, o rei seria obrigado a nomear um novo ministério que a junta das Cortes havia escolhido; apenas Carlota se negou a jurar fidelidade ao novo governo e foi escanteada para o Palácio do Ramalhão.

Há, no início dessa ideia de junta das Cortes, um imaginário de maior liberdade e igualdade entre Brasil e Portugal, isso em parte pelos representantes brasileiros que foram para Portugal consolidar a política dos liberais portugueses no final de 1821. Um dos únicos não iludidos pertencia à elite paulista: era José Bonifácio de Andrada e Silva, que havia sido professor em Coimbra e tinha noção da ideia portuguesa de restauração do Império Ultramarino. No fim das contas, a política das Cortes centralizava o poder em Lisboa e retirava a autoridade política do Rio de Janeiro. Por isso, em 14 de dezembro, d. Pedro escreve para o seu pai: “A publicação dos decretos fez um choque mui grande nos brasileiros, a ponto de dizerem pelas ruas: se a constituição é fazerem-nos mal, leve ao diabo tal coisa.”

O Caminho da Independência

Havia a percepção das elites políticas brasileiras de que o sentimento de autonomia com relação a Portugal estava cada vez mais arraizado, e por isso, em 1822, as ações caminhariam para este lado. É importante lembrar que as notícias entre Brasil e Portugal demoravam dois meses, e as ações de d. Pedro incomodavam as elites brasileiras, pois ele era muito enrolado; até mesmo a princesa Leopoldina (que tinha muito receio da monarquia constitucionalista) o acudia, pedindo-lhe mais pressa. Por exemplo, em 9 de dezembro de 1821 chegavam os decretos portugueses exigindo o retorno imediato de d. Pedro. Logo, duas lideranças distintas — Gonçalves Ledo e José Bonifácio — pediram, junto à Câmara do Rio de Janeiro e com mais de 8 mil assinaturas, que d. Pedro permanecesse. Daí nós temos o Dia do Fico, em 9 de janeiro de 1822, quando d. Pedro supostamente fala: “Diga ao povo que fico!”

A partir daí, d. Pedro é cercado por dois grupos distintos: o liderado por José Bonifácio, conhecido como coimbrão, que em 16 de janeiro já organizava um ministério no Brasil; e, por outro lado, o liderado por Gonçalves Ledo (líder dos brasilienses), que exigia o rompimento imediato com as Cortes portuguesas. Essa pressão se transforma numa Assembleia Brasílica em 3 de junho, que visava mais a união interna do que a separação com Portugal, porém os portugueses já publicavam a ação como separatista.

A independência do Brasil foi um processo longo e escalonado, diferente das rupturas revolucionárias que o próprio jogo demonstrou. Na verdade, existiram diversas ações que culminaram na separação com relação a Portugal, e de fato foi o decreto de 1º de agosto de 1822 que definiu um rompimento de fato. Nesse decreto, d. Pedro declarava inimiga todas as tropas que desembarcassem sem o seu consentimento. Seguido a isso, dois manifestos importantes — um de Gonçalves Ledo, feito no mesmo dia, e outro no dia 6, redigido por José Bonifácio — praticamente declaravam o Brasil independente de Portugal. Mas a demora de d. Pedro deixava parte da elite paulista muito descontente, e por isso, naquele mesmo mês, começava uma revolta na região. Com isso, d. Pedro teria que deixar a regência com dona Leopoldina, partindo imediatamente para lá, pois era São Paulo que mais o apoiava no seu processo separatista.

E aqui começa o processo tradicional da nossa independência: quando, retornando de Santos (onde havia ficado na residência dos irmãos Andradas), d. Pedro e sua pequena comitiva (por volta de 17 pessoas) sairiam pela manhã de burro para voltar ao Rio de Janeiro. É importante dizer que todo esse caminho de Santos até São Paulo foi reconstruído pela história oficial do Segundo Reinado, a partir da publicação de História da Independência do Brasil em 1877, elaborado por Alexandre José de Mello Morais, que pedira cartas e relatos aos membros da comitiva de 1822. Os relatos do padre Belchior, de Manoel Rodrigues Jordão e do capitão-mor Manoel Marcondes de Oliveira e Mello vão permitir a construção do “Grito do Ipiranga”, onde d. Pedro teria recebido as cartas de José Bonifácio e da princesa Leopoldina, proferindo nas margens do Ipiranga: “Independência ou morte!” E depois avisaria os demais integrantes do grupo na Casa do Grito, tudo isso reconstruído e reimaginado na obra de Pedro Américo, no famoso quadro da independência.

Pessoas, essa data nem foi percebida na época, tanto é que nós temos um breve comentário em 20 de setembro no jornal O Espelho, e pronto! Assim como o jogo construiu nossa independência através de uma revolução espontânea, o marco de 7 de setembro também foi uma criação. Por exemplo, ainda havia na época a necessidade de formalizar a separação, e isso ocorreu primeiramente com a aclamação em 12 de outubro, dia do aniversário de d. Pedro. Porém, o discurso dos políticos não agradou d. Pedro, que buscava ter o poder legitimado como no absolutismo, e não como imperador da constituição como o discurso da época propôs. Por isso, d. Pedro afasta os brasilienses da esfera de governo e se aproxima ainda mais de José Bonifácio e dos coimbrãos. Isso não foi feito de forma pacífica: houveram prisões e deportações. Então, a outra data para o rompimento com Portugal acabou sendo em 10 de dezembro de 1822, quando d. Pedro I é coroado como imperador do Brasil, num modelo muito próximo ao de Napoleão em 1802, mostrando que o Império do Brasil nascia como uma nação absolutista, muito distante do ideário liberal.

E as Guerras de Independência?

Conforme observamos em Age of Empires 3, tudo pode ser resolvido através do conflito e, por incrível que pareça, a independência do Brasil aparenta ser uma transição de poder dentro dos interesses da família Bragança em consonância com os interesses da classe dominante brasileira. E em parte isso faz sentido; porém, não pensamos que no Brasil havia essa paz toda e o total escanteamento da população, que tinha uma característica muito diferente no jogo (que denota à população geral o título de aldeão). No Brasil, nos tempos da independência, havia classes sociais bem distintas e, infelizmente, o tom da pele era um denominador dessas diferenças. Havia uma divisão macro entre brancos e pretos (entendendo os pretos como as pessoas escravizadas), enquanto entre os brancos havia os menos brancos e os mais brancos, mas com uma característica em comum: eram livres. É claro que, se pensarmos nessa configuração racial, havia os mestiços, que serviam como um “amortecedor” entre os dois grupos de brancos e pretos; essa mestiçagem era chamada de mulatos, cafuzos, etc.

Mas é óbvio que o jogo não mostra o macromodelo econômico e social do Brasil naquele tempo, ou seja, a exploração da escravidão. Não há navios negreiros nos meios de barcos de transporte, as fazendas não possuem escravizados em suas plantações, e até tem um modo de criação de moedas no tipo Casa Grande e Senzala, mas a mão de obra mostrada exclui qualquer imaginário de escravidão. E assim, havia diferenças entre a população branca, até mesmo entre os mais ricos (podendo ser brasileiros ou portugueses), assim como entre os escravizados (como os crioulos e os africanos). Mas aqui admito: mostrar a complexidade da sociedade brasileira num jogo como Age of Empires é complicado, mas fechar os olhos para a escravidão é meio que imperdoável…

Falando sobre os conflitos, no jogo aparenta uma mobilização patriota estilo o filme O Patriota, mas na historiografia parece que não há conflito algum. E agora?

Pessoas, a independência do Brasil foi marcada por intensos conflitos, e eles serviram não só para consolidar a separação com os portugueses — como as guerras na Bahia, que perduram até 2 de julho de 1823, onde nós temos a expulsão dos portugueses —, mas também a partir de outras frentes de combate, como na Cisplatina (atual Uruguai) e as guerras no Maranhão, no Piauí e no Pará. Estes conflitos de independência serviram como movimento unificador do Império, ou seja, além de consolidar a independência, nós podemos pensar nestes conflitos como essenciais para a manutenção da unidade do Império. E aqui fica uma dica para os mods seguintes: reconstruam as classes militares e não esqueçam de inserir Maria Quitéria como heroína única, pois ela tem uma história que representa a força das mulheres naquele tempo, tendo sido reconhecida mulher em campo de batalha e mantida por sua bravura, recebendo de d. Pedro I a Ordem Imperial do Cruzeiro, a mais alta condecoração do recém-criado Império do Brasil.